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Militante da palavra
Aderbal Freire-Filho diz que não existe bom teatro sem texto e ator. Sua adaptação do livro O púcaro búlgaro, do mineiro Campos de Carvalho, chega aos palcos de BH no fim de semana
Ailton Magioli
Quatro séculos depois de seu surgimento, o romance, herdeiro da epopeia, continua sendo a melhor forma de expressão artÃstica para contar uma história. A constatação é de Aderbal Freire-Filho, de 69 anos, diretor de O púcaro búlgaro – última parte da trilogia romance-em-cena idealizada por ele. No fim de semana, a peça estará em cartaz no Teatro Sesiminas.
Cearense, Aderbal fez carreira no Rio de Janeiro e foge do chamado “teatro de diretorâ€, em voga no Brasil nas últimas décadas. Prefere a busca incessante pela valorização do texto, que, em sua opinião, tem no ator o principal canal de expressão. “O romancista argentino Ricardo Piglia costuma dizer que, com o cinema e a tecnologia, não há mais espaço para um Honoré de Balzac. Mas há para um Piglia. Ou seja: não há mais lugar para o cara que faça o perfil da sociedade, dos variados tipos que compõem o corpo social, como o Balzac fez em seu painel monumental. Mas há espaço para outra forma de contar uma história. Piglia diz isso porque o cinema faz o que o Balzac fez. O cinema é um contador de histórias balzaquiano, sem que isso tenha algo a ver com a idade. A televisão também age assim com as telenovelas, a forma tecnológica do velho folhetim. Mas o romance se transformou. Então, o teatro, forma de expressão artÃstica que a gente poderia considerar ultrapassada, continua em açãoâ€, acredita o diretor.
Em casa
Não por acaso, o cinema doméstico se chama home theater, teatro em casa, observa Aderbal. “Antigamente, só pessoas como os reis LuÃs XIV e LuÃs XV podiam levar atores para casa. Hoje em dia, qualquer plebeu leva os atores para sua sala por meio do DVDâ€, lembra. Certos valores jamais se perdem, ressalta ele.
Com O púcaro búlgaro, de Campos de Carvalho, ele encerra a trilogia do romance-em-cena iniciada em 1990 com a montagem de A mulher carioca aos 22 anos, de João de Minas, seguida de O que diz Molero, de Dinis Machado. Há dias em Belo Horizonte para ministrar oficina no espaço do Grupo Galpão, o diretor resgata, por meio da companhia mineira, a vivência com o teatro de rua, gênero no qual se exercitou nos anos 1980.
“Meu compromisso é com o teatro em todas as suas possibilidadesâ€, avisa, anunciando que busca o teatro que afirma a própria existência e vitalidade. “A rua é fundamental para isso. A arquitetura teatral do séculos 18 a meados do século 20, o chamado teatro à italiana, do palco frontal, é só uma opção, mas era visto como ‘o teatro’ pela geração anterior à minha. Isso era muito limitador. Então, quando se pensou em uma sala como ‘espaço vazio’, para usar a expressão de Peter Brook, a rua passou a ser o local para avançar. Ali havia o cenário mutante, com plateia mutante.†Seja o espaço que for, ator e texto são essenciais ao jogo teatral. “O melhor texto do mundo não se sustenta se não houver um ator vivo, presente, verdadeiroâ€, garante o encenador.
Paralelamente à arte da representação – ele estreou nos palcos como ator –, Aderbal cursou direito. “Felizmente, troquei-o pelo teatro para não me tornar advogado e homem frustradÃssimoâ€, afirma. A escolha do curso se deu, provavelmente, por influência do pai, advogado e professor universitário. Ele só assumiu a carreira de diretor por obra do acaso, pois sua missão era o texto. “Escrevi uma peça e mostrei para umas pessoas dirigirem. Algumas até se interessaram, mas programaram para depois. Tratava-se de espetáculo inspirado no livro Flicts, de Ziraldo, minha única experiência em teatro infantilâ€, relembra. Na década de 1970, ele dirigiu, em Belo Horizonte, os então desconhecidos José Mayer, Vera Fajardo e Antônio Grassi encenando texto de Alcione Araújo. “Minas Gerais é o berço, o centro, o ouro do Brasilâ€, afirma.
TV
O diretor é crÃtico em relação à televisão – nem sequer tem aparelho em casa. “Quando quero ver um filme, vejo no computadorâ€, despista, admitindo que, mesmo tendo bons amigos na TV, desconhece o ofÃcio. “Trabalho muito com o universo de atores da televisão. Fiz quatro dos meus últimos espetáculos no Teatro Poeira, pertencente a Marieta Severo e a Andréa Beltrão, que trabalharam em duas dessas peças. Fiz também Hamlet, com Wagner Moura, e agora faço Macbeth, com Renata Sorrah e Daniel Dantasâ€, informa.
A relação do encenador com a telinha é indireta, por meio desses artistas. Inclusive, ele é casado com Marieta Severo. “Acho que não conseguiria fazer televisão. Na minha idade, não teria mais tempo para aprender. De fato, o veÃculo não me atrai. O que me atrai é o cinemaâ€, assume. Ele atuou no longa Juventude, de Domingos de Oliveira, que lhe rendeu prêmio no Festival de Cinema de Gramado, dividido com o diretor e com Paulo José. Eles interpretam um trio de amigos de infância. Aderbal também é parceiro de Walter Carvalho no projeto do longa-metragem O que diz Molero.
Aspectos cruéis na vida artÃstica estão relacionados à TV, afirma Freire-Filho. “Às vezes, há peças com excelentes atores, mas o público não reconhece esse valor porque eles não fazem televisão. É como se não tivessem sido carimbados, avalizados pela TV. Artistas excelentes trabalham comigo, mas a TV dificilmente os chamará. Não que ela só convoque maus atores, pois vai pegar desde o modelo de beleza para transformar em galã ou estrela, até chamar profissionais da melhor qualidade. Quando viu Luiz Mello, Matheus Nachtergaele e outros extraordinários talento, a TV levou-os para ela. E isso é ótimo. Mas não há como negar que Big Brother Brasil virou teste de ator, pois quem sai de lá vai ser artista ou fazer nu para revistasâ€, conclui.
Abaixo o isolamento!
Com passagens pelo exterior, especialmente na América Latina, Aderbal Freire-Filho disse, certa vez, que, se forem traçadas retas imaginárias de Buenos Aires e do eixo Rio-São Paulo, elas se cruzariam em Além ParaÃba, na Zona da Mata mineira. “Vamos marcar um encontro lá para que Brasil e Argentina troquem olhares um para o outro, pois ficam olhando, respectivamente, apenas para os Estados Unidos e a Europaâ€, critica.
“Acho fundamental o Brasil se envolver com os vizinhosâ€, reivindica o diretor, atribuindo tal distância em relação aos paÃses latino-americanos à dimensão continental brasileira e à lÃngua. “Em festivais latino-americanos e hispano-americanos, o Brasil é o único paÃs traduzido. Nossas peças e as deles precisam ser traduzidas, enquanto o argentino monta uma peça colombiana, o mexicano faz espetáculo uruguaio sem problemas, no original. Precisamos superar esses obstáculosâ€, ressalta.
Freire-Filho já trabalhou no Uruguai, também dirigiu espetáculos na Argentina e na Espanha. “É muito fértil essa trocaâ€, garante, enquanto prepara nova montagem do musical Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, que deverá estrear em setembro.



